FOI

Pela manhã eu abri a janela de madeira, mal pintada de amarelo, mas não vi o Sol. Pelos anos que eu ali já vivia eu sabia de cor o local exato em que ele nascia, não importava a estação do ano.

Estranhei, achei que estivesse sonhando. Apesar da neblina fria e densa e da fumaça que saía da serpentina de uma casinha lá no meio do mato, ele deveria estar ali, entre o coqueiro que plantei e um dos poucos postes que existia naquela rua calma.

Corri para o smartphone tentando buscar um pouco de senso de realidade – Ah, justo ele – e acabei lendo a notícia de que meu time havia vencido o jogo da noite anterior. Era tudo verdade.

O Sol já havia se escondido de mim tantas vezes, mas sempre tinha uma nuvem que o levava e o trazia de volta. Ora soprada por mim, ora por Deus. Gostava quando ele tocava a minha barba que até ontem ainda estava por fazer, mas dessa vez era diferente.

Se eu soubesse (talvez sabia) teria me despedido dele na tarde do dia anterior, com a poupa e elegância que ele merecia e eu também, eu acho.

Então eu fechei a janela de tantas demãos de tintas que nem sei ao certo a cor, e parti para dentro de mim mesmo. Acendi uma vela, sem crenças e sem devoção alguma, apenas para clarear um pouco mais o meu caminho. Apesar de saber que quem partiu foi ele.

E aquela foi a última vez que eu senti o Sol sem ao menos tê-lo visto. Boa viagem.

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